Teoria

A Teoria da Estratégia

Samuel Edward Konkin III

por George H. Smith

Parte I: Murray Rothbard, o Leninismo e o Partido Libertário. Ou, “O que um bom Bolchevique que nem você está fazendo num Partido Menchevique desse?”

[George deseja que a N-NLA deixe claro que ele escreveu isso há mais de um ano, e embora permaneça válido teoricamente, o próprio Murray Rothbard não mais sustenta as posições assinaladas a ele aqui. De fato, temos uma parte de uma carta feita pelo próprio Dr. Rothbard testificando a sua contínua iluminação a qual imediatamente segue esse artigo. Ainda mais inspirador e encorajador para Libertários de Esquerda, Rothbard “brigou” com o neo-stalinóide Justin Raimondo na publicação deles, Libertarian Vanguard, e Rothbard (junto com Williamson Evers) tomou a posição anti-leninista. Entretanto, o fato de que a Raimondo foi dado considerável espaço para defender sua posição na LV indica que a questão está longe de estar morta e isso certamente se encaixa no tema desta edição. Esperamos, como dissemos, ter mais prestações de George G. Smith conforme ele desenvolve sua Teoria da Estratégia encaixando-a ou não em qualquer tema. — SEK3]

Por muitos anos Murray Rothbard enfatizou a necessidade de uma teoria compreensiva e integrada da estratégia libertária. Suas próprias visões sobre estratégias (expressadas em várias edições do The Libertarian Forum, Libertarian Review, e em outros lugares) são altamente influenciadas por Lenin, o gênio estratégido dos Bolcheviques. De fato, é acurado caracterizar a estratégia Rothbardiana como Leninismo adaptado para propósitos libertários. Isso não é dizer que Lenin cunhou todos os conceitos associados com essa abordagem—”vanguarda, “cadres”, “divergentismo”, “sectarismo de esquerda”, “oportunismo de direita” etc.—mas ele certamente inculcou nesses termos seus sentidos distintivos.

Muitos libertários tem desgosto por essa terminologia. Eles afirmam que acusar outros libertários de “sectarismo de direita” ou o que quer que seja, é mais que um esforço pretensioso de velar uma abordagem de livre-mercado (o que não é geralmente percebido como sendo feito à moda radical) em um manto chique de radical de esquerda. Mas isso é injusto com os libertários que levam o Leninismo a sério como uma visão estratégica, e isso inclui muitos libertários proeminentes além de Rothbard.

Por exemplo, Steve Halbrook, escrevendo na edição de setembro de 1973 do The Libertarian Forum, pediu a formação de “Um Partido Revolucionário Libertário” baseado em “um leninismo consistentemente libertário”. Halbrook chegou ao ponto de afirmar que “Aqueles que se opõem à organização revolucionária em face de organizações reacionárias são objetivamente agentes da classe dominante” – ecoando assim os argumentos de Lenin contra outros socialistas que estavam menos do que entusiasmados com sua “visão estratégica”.

Similarmente, mas menos militantemente, Tom Palmer expôs a aplicação do Leninismo para o Partido Libertário da edição de Novembro de 1976 do mesmo jornal. Elogiando a “teoria da mudança social” de Lenin como “brilhante” (enquanto observa, é claro, que “Lenin estava mais longe do libertarianismo do que qualquer um poderia estar”), Palmer prossegue argumentando que “a grande estrutura de meios pode ser aplicada para a consecução de fins opostos”. (Ironicamente, desde que atacou Bob Poole por seu “oportunismo de direita”, Palmer foi acusado de oportunismo de direita por Rothbard por seu apoio à campanha de Clark).

A retórica e os princípios leninistas são especialmente prevalentes entre os membros do “Caucus Radical” do LP [Libertarian Party]. Justin Raimondo, em uma edição recente da Vanguard, atacou os libertários antipolíticos konkinianos por seu “sectarismo de esquerda”, e Bill Evers é conhecido por rotular tipos antipartidários como “divergentistas antiparlamentares”.

Os leninistas libertários compreendem boa parte do núcleo radical dentro do Partido Libertário. Tipicamente, como bons Leninistas, eles clamam por um Partido altamente centralizado, e eles protestam contra os descentralistas dentro do Partido (uma variante do “divergentismo Konkiniano”, como eu já ouvi descreverem uma vez). É óbvio que esses membros do partido levam seu Leninismo a sério, então não devemos descartar a retórica leninista como inadequada ao movimento libertário, a menos que possamos mostrar que a teoria estratégica subjacente à terminologia também é inadequada. Esta é uma das tarefas que realizarei nesta série sobre A Teoria da Estratégia.

Se o leninismo fracassar como estratégia libertária coerente, que opções restam? O que quer que se pense sobre Leninismo Libertário, seus defensores pelo menos dedicaram bastante pensamento a questões estratégicas. Murray Rothbard tem frequentemente criticado os libertários antipolíticos por seu fracasso em desenvolver estratégias alternativas à ação política (com exceção de Sam Konkin). E quando alternativas foram propostas, como por Konkin, elas foram descartadas como irremediavelmente inadequadas. Assim, as partes posteriores deste ensaio examinarão o assunto das estratégias libertárias não-políticas.

Antes de criticar o uso da estratégia leninista no movimento libertário (o tópico da Parte II), vamos supor, para o restante desta discussão, que o leninismo pode ser aplicado de forma significativa. Ainda não se segue que Rothbard e outros leninistas libertários tenham aplicado a estratégia leninista corretamente. De fato, argumentarei que Rothbard negligenciou um aspecto crucial do modelo leninista – o conceito de um “partido” – que vicia sua aplicação do leninismo ao Partido Libertário. A estratégia leninista correta, como indicarei, exige que Rothbard, Evers e outros membros do Radical Caucus se retirem completamente do LP, a fim de formar uma “vanguarda” fora do Partido Libertário (que, na teoria leninista, está condenado sucumbir ao oportunismo de direita).

 Considere uma reclamação comum de Rothbard: que o Partido Libertário caiu no oportunismo de direita (por exemplo, “liberalismo de baixo imposto”). Isso, para Rothbard, é uma tendência perigosa que deve ser combatida por um quadro de núcleo duro dentro do Partido, como o Radical Caucus. Boa estratégia Leninista, certo? Errado. Esse tipo de pensamento é muito mais menchevique do que bolchevique. É uma estratégia que não só foi rejeitada por Lenin, mas foi vigorosamente condenada como fatal para a causa revolucionária. O leninismo sadio requer uma rejeição inequívoca do Partido Libertário tal como ele é constituído no presente. Diante da acusação de oportunismo do LP, o verdadeiro leninista libertário diria que o oportunismo é inevitável dada a estrutura do Partido.

Considere que a filiação ao LP é aberta às fileiras e bases (qualquer pessoa se junta a ele) e que ele é estruturado democraticamente (delegados eleitos pelos membros) votam na plataforma do Partido. Ambas as características são contrárias à visão de partido de Lenin. De fato, a cisão bolchevique-menchevique no Segundo Congresso do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Rússia (1903) foi ocasionada precisamente por esta questão. Os mencheviques (“minorias”) geralmente eram a favor de um partido aberto e democrático; e eles perceberam que um partido de massa, onde mesmo os recém-chegados sem instrução têm voz, não se prestava a um controle centralizado.

O Partido Libertário, como indicado anteriormente, está estruturado em linhas mencheviques: e é essa estrutura que Lenin condenou repetidamente (especialmente em O que é Para ser Feito?)

Os bolcheviques (“maiorias”), liderados por Lenin, insistiam que a pureza teórica nunca deveria ser comprometida. O “papel de um lutador de vanguarda”, argumentou Lenin, “pode ser cumprido apenas por um partido que é guiado pela teoria mais avançada”. Mas isso dá origem a um problema sério. Como pode a pureza teórica ser preservada em uma organização de massa cujas fileiras estão continuamente crescendo com recém-chegados não iniciados, especialmente se esses recém-chegados têm voz para forjar a doutrina do Partido? A resposta de Lenin foi simples: isso não pode ser feito. Esperar que o proletariado chegue espontaneamente a uma consciência revolucionária, mantendo assim o partido de massas no caminho correto, é “um erro profundo”. Lenin acreditava que a classe trabalhadora, se deixada por conta própria, desenvolveria não uma verdadeira consciência socialista, mas “uma consciência sindical” – uma visão focada em objetivos de curto prazo, como aliviar as queixas econômicas imediatas. Ter uma adesão aberta ao Partido, onde os trabalhadores com tendências oportunistas possam ter voz na doutrina do Partido, foi visto por Lênin como cortejar o desastre.

As massas proletárias, argumentou Lenin, precisam ser guiadas para uma verdadeira perspectiva revolucionária. Eles devem ser afastados de suas tendências oportunistas por meio de “exposição política abrangente”, onde são ensinados os princípios e a estratégia da causa revolucionária mais ampla. “Estas exposições políticas abrangentes são uma condição essencial e fundamental para treinar as massas na atividade revolucionária.”

Educar as massas é a função básica do Partido no esquema Leninista. O Partido — uma vanguarda radical de revolucionários profissionais bem-versados em teoria socialista — empenham “energia, estabilidade e continuidade à luta política”. Mas – e isso não pode ser enfatizado demais – a organização do partido “deve ser inevitavelmente de um tipo diferente da organização dos trabalhadores…” Ademais, o Partido não pode ser aberto às massas. Lenin ridicularizou o “auto-alistamento no Partido” e um Partido democraticamente controlado “de baixo para cima”. Pelo contrário, pureza teórica requer um Partido pequeno, fechado e altamente centralizado. Embora as organizações operárias, como os sindicatos, devam ser amplas e abertas a todos, o Partido requer uma estrutura radicalmente diferente. Ela “deve consistir em primeiro lugar de pessoas que fazem da atividade revolucionária sua profissão. […] Tal organização precisa forçosamente não ser muito extensiva. […]”

Vemos, então, que Lenin categoricamente rejeitou um partido que é “acessível às massas”. Por quê? Porque pureza teórica não pode ser mantida em tal Partido. Divergências serão abundantes, especialmente entre os membros mais novos e menos esclarecidos, que conduzirão o Partido inevitavelmente ao oportunismo. Mas se o Partido ele mesmo se tornar fraco em teoria revolucionário, então quem irá instruir as massas? A função essencial do Partido, portanto, dita sua estrutura. Ele precisa ser fechado (filiação apenas por convite, com efeito), administrado a partir de cima (“burocrático”, como Lenin o descreveu) e precisa ser capaz de expulsar divergentes de suas fileiras.

Tão essencial era essa noção de um Partido para a visão estratégia de Lenin que ele institui que “nenhuma tendência revolucionária, se ela pensa em lutar seriamente, pode dispensar uma tal organização.” Mas os Libertários Leninistas não possuem uma tal organização. A estrutura do Partido Libertário é o inverso do que Lenin exigiu. Isso gera o dilema básico em face dos Libertários Leninistas: eles são Bolcheviques em um Partido Menchevique. Trabalhando a partir de um modelo Leninista, eles exigem do Partido Libertário uma pureza que o próprio leninismo considera impossível. Eles tentam implementar a estratégia leninista em uma organização que o próprio leninismo condena como estruturalmente doentia. O que Rothbard condena como “venda” seria visto por um leninista consistente como o resultado normal de um partido democrático e aberto. E enquanto Rothbard continua a luta por pureza ideológica dentro do Partido, um Leninista consistente reconheceria que, dada a estrutura do Partido Libertário, a pureza ideológica está condenada.

É claro, Rothbard pode sempre argumentar que Lenin estava errado sobre esse ponto. O que Lenin viu como oportunismo inevitável em um Partido democrático aberto é tido por Rothbard como uma forte tendência mas não é de nenhum modo inevitável. O ponto importante não é quem está correto, Lenin ou Rothbard. O ponto importante é que a ideia de Lenin de um Partido era uma característica essencial de sua visão estratégica. Rejeitar isso, como Rothbard faz, faz com que outros elementos da estratégia leninista desabem ao seu redor. Promover a estratégia Leninista, embora rejeitando a peça central dessa estratégia, é defender o Leninismo apenas no nome; e ameaça transformar a terminologia Leninista em uma caricatura de seu verdadeiro significado (“frase comercial”, como descreveu Lenin).

O fracasso dos Leninistas Libertários em compreender o significado da estrutura do partido exigida por Lenin explica seus muitos desvios do verdadeiro Leninismo. Considere a noção de Rothbard de uma “vanguarda” ou “cadre”. Rothbard vê a necessidade de uma vanguarda ideologicamente pura dentro do LP para mantê-lo “centrista” (isto é, não indo pro lado nem do oportunismo de direita nem do sectarismo de esquerda). Mas, para Lenin, a vanguarda não era um grupo dentro do Partido, mas era o próprio Partido. Essa diferença não é tão inconsequente quanto pode parecer. A vanguarda de Lenin foi a vanguarda do movimento revolucionário. Sua força estava não apenas em sua teoria correta, mas em sua capacidade de controlar os membros e a direção do Partido, abrindo caminho para o movimento mais amplo. A vanguarda de Lenin, em outras palavras, tinha músculos; poderia impor sua vontade por meio do controle da literatura do Partido e da expulsão dos divergentes.

A “vanguarda” de Rothbard, em contraste, nada mais é do que uma grupo exclusivo de ativistas lutando pelo poder dentro de um partido de massa que resiste ao controle centralizado. E embora essa vanguarda possa controlar suas próprias fileiras e literatura (como faz o Caucus Radical) por meio de uma estrutura centralizada e não democrática, ela não pode exercer esse tipo de direção sobre o próprio Partido. E o problema somente piore conforme o Partido se torna mais bem-sucedido. À medida que o LP adquire mais uma base de “massa”, à medida que mais recém-chegados participam de convenções e votam, a capacidade da vanguarda interna de deter o avanço do oportunismo torna-se cada vez mais inútil. A vanguarda rothbardiana, comparada à vanguarda leninista, é uma maravilha sem dentes.

Outro exemplo da situação enfrentada pelos bolcheviques libertários em um partido menchevique é ilustrado em um artigo de Bill Evers, “Party Newsletters: No More Kvetching” (Libertarian Review, Agosto 1978). Como um bom Leninista, Evers rejeita a noção de que os boletins do Partido (e, suspeita-se, a literatura do Partido em geral) “devem ser um fórum aberto” onde vários tipos de desvio podem ser exibidos. (Evers cita muitos exemplos de artigos infundados que aparecem no Party Newsletters). Contrário àqueles que sustentam que os boletins do Partido devem proporcionar um “encontro livre e aberto” para pontos de vista conflitantes, Evers responde que essa posição confunde a sociedade em geral (onde se aplicam os argumentos da imprensa livre) com 3 organizações voluntárias instituídas para um propósito específico (onde argumentos de imprensa livre não se aplicam).  O argumento a favor de uma imprensa livre, observa Evers, “não é uma prescrição de como as organizações devem conduzir seus assuntos internos”.

“Um jornal [newsletter] do LP”, de acordo com Evers, “deveria ser um veículo para organizar e construir um partido político. […]” Ele “deve refletir” a posição da “visão estratégica do Libertarian National Commitee [Comitê Libertário Nacional]. Cada jornal deve ser editado com mão firme e guiada pelos propósitos para os quais o L.P existe.” Desta forma, os jornais resistem ao “retrocesso ideológico” entre os membros do Partido.

É interessante comparar esse artigo com um artigo escrito por Lenin em 1905. “A Organização do Partido e a Literatura do Partido”. As semelhanças são impressionantes até certo ponto. Lenin pede que a literatura do Partido cubra a linha do Partido. Isso, diz ele, é essencial para o sucesso de um movimento revolucionário, especialmente conforme ele atinge um tamanho substancial. Enquanto para aqueles que clamam por uma imprensa livre dentro do Partido e que acusaram Lenin de defender um tipo de censura, Lenin respondeu: “estamos discutindo a literatura do Partido e sua subordinação ao controle do Partido. Todo mundo é livre para escrever o que quer que goste, sem nenhuma restrição. Mas toda associação voluntária (incluindo um partido) é também livre para expulsar membros que usem o nome do partido para defender visões anti-partido”.

A similaridade com Evers é aparente. Mas note a importante diferença. Evers deve esperar persuadir um grande número de membros do Partido ao seu ponto de vista – dificilmente uma aventura promissora quando confrontado com um movimento que se orgulha do individualismo. Lenin, por outro lado, não recorreu a persuasão; ele desejou expulsar membros que expressassem visões divergentes na literatura do Partido. Novamente citando Lenin: “O Partido é uma associação voluntária, que inevitavelmente se desintegraria, primeiro ideologicamente e depois materialmente, se não se purificasse das pessoas que defendem visões antipartido.” Um Partido mantém sua pureza por meio de “limpezas periódicas de suas fileiras”.

Assim, embora Evers e Lenin desejem se proteger contra o divergentismo na literatura do Partido, apenas Lenin estava trabalhando dentro de uma estrutura onde o desvio poderia ser efetivamente reduzido. Evers, em contraste, deseja implementar a política leninista em um partido que é estruturalmente inadequado para ela. Ele é um bolchevique à deriva em um mar menchevique.

Vale a pena repetir que a tentativa de Evers de manter puros os jornais do Partido, sem nenhum mecanismo para impor a pureza pela expulsão do Partido, é castigada por Lenin como uma fraqueza fundamental que “inevitavelmente” causará uma “ruptura” ideológica do Partido. Agora Evers pode desejar que o LP se expurgue de divergentes, implementando assim a visão Leninista, mas não pode. Até e a menos que os Leninistas Libertários transformem o LP de menchevismo em bolchevismo, sua implementação do “Leninismo” dentro do Partido é apenas uma zombaria da coisa real.

Se, como argumentei, os leninistas libertários são bolcheviques em um partido menchevique onde sua estratégia “Leninista” se torna distorcida e fútil, então por que os leninistas deveriam deixar o LP completamente, como sugeri anteriormente, em vez de trabalhar dentro do partido para transformá-lo para das linhas bolcheviques? (Até mesmo Lenin contestou os mencheviques por algum tempo até que os bolcheviques se dividiram em um partido separado).

Para responder a essa questão, precisamos primeiro considerar a tendência de o Partido Libertário (ou qualquer partido político efetivo na América de hoje) poder ser estruturado de acordo com a teoria bolchevique. O Partido de Lenin, lembre-se, não era um partido político de massa buscando vencer eleições; era um grupo revolucionário que esperava em completo um confronto violento com a burguesia. Ademais, muito da preocupação de Lenin com a “disciplina de ferro” dentro do Partido se estimava a partir de sua expectativa de que os membros do Partido, falando em nome da classe trabalhadora como um todo, implementariam a “ditadura do proletariado” depois da bem-sucedida revolução. (Estendendo a aplicação da “visão estratégica” de Lenin para o libertarianismo, poderíamos esperar uma “ditadura do Caucus Radical” depois da “revolução” libertária?)

A ideia de um Partido Libertário Bolchevique parece tão improvável e bizarra que vou me abster de especular sobre como tal criatura funcionaria (muito menos como o presente LP poderia ser transformado em um). Flertando com o eufemismo, digamos que as prospectivas para um LP bolchevique são extremamente fracas num futuro previsível. E permanece a ironia adicional de que, enquanto os Rothbardianos lutam contra por mais centralização no Partido – como se estivesse lutando para alcançar o ideal bolchevique – aqueles que acabam controlando o aparato central não apenas se opõem aos Rothbardianos, mas também são “oportunistas de direita” para expurgar. (Testemunhe o reinante Comitê Nacional (no ano passado), onde as forças Crane dominam [d].) Assim, mesmo que o LP pudesse se transformar para linhas bolcheviques, provavelmente teríamos uma estrutura bolchevique controlada por divergentes. Colocar o mecanismo de controle no lugar é uma coisa; assegurar que o próprio quadro vai puxar as cordas é outra coisa completamente diferente.

Dadas as perspectivas improváveis de um Partido Libertário Bolchevique, o que há de errado com a tática de formar uma vanguarda dentro do Partido de massas (além de seu desvio do verdadeiro Leninismo)? O problema básico foi dito acima: a vanguarda será incapaz de conter a maré de oportunismo em um Partido da massa. Além disso, uma vanguarda submersa em um partido de massa perde a eficácia que poderia ter. Se, fiel ao leninismo, a vanguarda deve educar as “massas”, como isso pode ser feito se a vanguarda, lutando pelo controle dentro de uma organização democrática, é praticamente invisível para as próprias massas que ela deveria educar? Afinal, as massas não olham para o Radical Caucus para ver o que os libertários estão defendendo; em vez disso, eles olham para as declarações de candidatos políticos, onde o oportunismo tende a ser mais desenfreado. As campanhas políticas trazem à tona o oportunismo inerente a um Partido aberto e democrático. E se as massas ganharem sua compreensão do libertarianismo em grande parte das declarações dos candidatos, então as massas serão “educadas” não pela vanguarda, mas pela facção mais propensa ao oportunismo. Assim, conforme a energia da vanguarda é dissipada através de lutas internas dentro do Partido, e à medida que é relegada a um status minoritário e tornada invisível para o mundo exterior, a função primária da vanguarda – educar e liderar – é destruída.

Somente a opção estrategicamente sólida permanece para os Leninistas Libertários. Se a vanguarda deve cumprir sua missão leninista, deve deixar o Partido Libertário e formar uma organização separada. O Partido Libertário deve ser para os Rothbardianos o que os sindicatos foram para Lenin: uma organização aberta e desestruturada que serve ao propósito de atrair libertários novos e não-formados. Mas, como Leņin nunca se cansou de repetir, a vanguarda deve ficar do lado de fora como uma organização separada, ensinando os noviços e levando para o seu rebanho os mais promissores. Desta forma, a vanguarda controla o afluxo de novos membros, não está sujeita ao controle de baixo para cima e é capaz de manter sua pureza ideológica.

Se os Leninistas Libertários levam a sério sua estratégia, se eles realmente desejam estabelecer a vanguarda Leninista, então eles deveriam dar um basta no LP e em seu oportunismo congênito. Eles devem organizar um “Partido” bolchevique independente da elite (não pode, é claro, ser um partido político de massa) com membros fechados, controle centralizado e o poder de expulsar os desviantes. Só assim os Leninistas Libertários podem ter uma autêntica vanguarda, em vez de um grupo de pressão entre muitos dentro de um Partido Menchevique democrático e, portanto, incontrolável.

Infelizmente, tal êxodo dos Leninistas Libertários seria puramente estratégico e não motivado pela convicção de que os partidos políticos são incompatíveis com os objetivos libertários (especificamente, anarquistas). Mas é um passo mais longe do seu flerte com o oportunismo de direita e, portanto, constitui um importante estágio no desenvolvimento de uma autêntica consciência libertária. E quem sabe o que o futuro pode trazer?

[Será Continuado]

Querido George,                                                                                                                    28 de Novembro de 1981

Não sou mais um Leninista por diversas razões. Primeiro, minha experiência com o centralismo no Kochtopus fermentou no ultra-centralismo. Por uma razão, é mais fácil para um pequeno grupo exclusivo ou Líder sair da mesa de reunião e se tornar oportunista. E sobre um corolário e problema mais abrangente, mesmo com a maior boa vontade e perspicácia no mundo, qualquer pessoa ou grupo está fadado a cometer erros, visto que nenhum de nós é onisciente. Como uma analogia a um dos problemas com o controle do governo ser que um erro pode estragar todo o país, um erro estratégico ou tático da camarilha dominante de um partido ou de um movimento pode destruir essa organização ou movimento. Então, apenas por essas razões, agora acredito que qualquer organização, mesmo de puristas de boa vontade, precisa de freios e contrapesos internos para seu desenvolvimento mais saudável. Ergo, algum tipo de abordagem moderada sobre centralismo/descentralismo parece estar nos trilhos certos.

Murray N. Rothbard
 Nova York, Nova York

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